"A vantagem da medicina é poder ser quem quiser"
Em A Pediatra de Andrea del Fuego acompanhamos Cecília, uma pediatra aparentemente competente que segue a medicina como sigo uma receita de bolo, copio à risca, mas não tenho paixão nenhuma. Nessa narrativa em primeira pessoa, seguimos uma narradora completamente amoral, sem amor a nada e ninguém e sem freios na sua língua, até que um objeto de desejo vai mudar sua perspectiva.
A escritora brasileira Andrea Del Fuego cria uma narrativa numa linguagem simples, insana e de um humor corrosivo em primeira pessoa. Foi uma das experiências mais interessantes que tive recentemente com uma personagem porque aqui navegamos pela sua cabeça dessa sem nenhum freio social. Cecília é uma pediatra cínica, asséptica que anda na vida desprezando tudo e todos, inclusive as crianças que trata com a competência ditada pelo manual médico, mas sem nenhuma vontade de criar laços.
Cecília nos joga na cara a verdade que há um mundo de pessoas que tem a missão profissional ou parental de cuidar de crianças, mas estão pouco se importando com elas, mesmo que às vezes elas dizem o contrário. Não é mesmo verdade?
Suas relações - com a empregada, o amante, a colega de trabalho - são sempre conscientemente uma troca que beira muitas vezes à sociopatia. Contudo teimo a vê-la como muitas pessoas nascidas com muito dinheiro, sem contato real com pessoas que acabam vendo todas as relações como transações comerciais. E acho que esse é o grande trunfo dessa história. Porque Cecília não é louca, muito menos sociopata, ela é apenas reflexo de uma sociedade que dá poder a certas pessoas e profissões, mas que não dá consciência.
Tão real, ela vai encontrar uma paixão num objeto inesperado diante de sua história, mas ele vai ser importante para percebemos as nuances dessa personagem. Não sei se é o suficiente para perdoá-la, mas indubitavelmente conseguimos perceber todo um contexto social ao qual ela (e nós) estamos inseridos. Muito bom!
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