Quantas vozes sileciosas estão por aí fora?
Em A Voz Que Ninguém Escutou do estreante Renan Silva, ganhador do prêmio Kindle de 2024, acompanhamos a saga de uma família nordestina retirante, principalmente focada em três mulheres. Maria saí do Ceará com dois dos seus filhos pequenos, Inácio e Inês, fugindo de uma vida de violência e uma tragédia irá afastar Inácio da vida dela. Nos anos 60, acompanhamos esses filhos durante a ditadura militar. Já nos anos 2000, seguimos Vera, filha de Inês numa investigação para descobrir o passado da mãe.
O livro começa em 1945 e perpassa vários momentos da história do Brasil, apresentando aspectos históricos e culturais. Renan consegue compor um bom enredo, mesclando esses fatos históricos com a história da família. Acho que é um bom livro para quem não viveu esses momentos ou não os conhece. Parece um ótimo princípio de uma aula de história, sem ser didático. Ele consegue compor uma boa narrativa fazendo contrapontos, na primeira parte entre Inês e Inácio, que é bem formatada, na segunda parte Inês e Vânia.
Entretanto, o livro tem problemas no desenvolvimento da narrativa, principalmente quanto a escrita. A escolha do narrador em terceira pessoa, nos distancia dos personagens e das suas aspirações, faz com que os acontecimentos das tragédias não nos impacte (e há muitas tragédias acontecendo), não é relevante, somente uma tragédia a mais. Há muita ação de acontecimentos, mas nada que nos aproxime. Em uma página Maria abandona os filhos mais velhos no Ceará (e a gente nunca mais vai saber deles), para na outra ela perder o filho Inácio em algum lugar que suponho seja a Bahia, para na seguinte ela estar desembarcando no Rio de Janeiro e já procurando emprego. Nenhuma emoção. Só um ato depois do outro. Durante o livro isso melhora, mas ainda assim, falta uma perspectiva das emoções dos personagens e dos locais.
Na segunda parte do livro, chegamos aos diários de Inês, e é a primeira vez que podemos sentir a voz de um dos personagens, mas não acontece muita coisa, porque tirando a narração em terceira para primeira, parece que pouco muda. E acaba desaparecendo o Inácio, que é um personagem que fazia um bom contraponto na primeira parte com a Inês, oferecendo algumas reflexões sobre como o meio compõe o caráter da pessoa.
Acho que é um bom início de carreira e certamente Renan tem talento para desenvolvimento de enredos e vai encontrar maneiras de desenvolver sua narrativa.
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