"Memória lembra dunas de areia, grãos que se movem, transferem-se de uma parte a outra, ganham formas diferente, levados pelo vento"
Dentro de Eunice há várias mulheres e em Ainda Estou Aqui, acompanhamos essas diversas Eunices co-existirem ou sendo substituídas por outras conforme as circunstâncias a obriga. De mulher casada com o deputado Rubens Paiva e mãe de cinco filhos, a mãe solo quando o marido é preso pelo regime militar e desaparece. Eunice se reinventa-se, volta a estudar, torna-se advogada, defensora dos direitos indígenas e pelos olhos do autor Marcelo Rubens Paiva, seu filho, acompanhamos essa mãe até sua última luta contra o Alzheimer.
O livro já estava na lista de leitura, mas com o hype pelo filme do Walter Salles, ele pulou na minha frente implorando para ser lido. Ainda bem que às vezes surgem oportunidades que nos fazem ler um livro. Esse aqui é um honesto retrato sobre a nossa ditadura militar, essa máquina de moer e destruir gente e todas as suas famílias, e sobre como é conviver com o Alzheimer, numa bela construção sobre memória.
Marcelo Paiva usa uma linguagem coloquial, crua, mas sensível para colocar-nos na pele de um garoto que de repente tem sua vida virada ao ar e a de sua mãe que enfrenta com uma coragem gigantesca o inimaginável, quando um Estado desaparece com pessoas no ar. Acho que um livro precioso para nos mostrar o que foi a ditadura militar, e um daqueles que não afastam (pelo menos não deveria).
A narrativa mistura diversos momentos com pulos no tempo, como funciona muito da nossa memória, também um assunto importante na construção do livro. Então somos confrontados com esse passado e o presente, essa jornada que é viver com uma pessoa que tem Alzheimer, num ir e vir que nunca nos engana, que vai adicionando camadas nessa história. Vale muito a pena! O melhor é pensar que o filme vai levar essa história a muito mais gente. Ainda bem.
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