"Pertenciam-se e comunicavam entre si pela intensidade dos sentimentos. Tinha inventado uma família".
"Nenhum homem é uma ilha", nesse livro nada é tão verdade como a frase do poeta e religioso inglês John Donne. Aqui encontramos vários personagens solitários que estão sedentos por um pedacinho de atenção e cuidado de alguém. E são aos poucos que esses encontros acontecem e a magia dessa história nos agarra.
Crisóstomo é um pescador a procura de um filho. Encontra em Camilo, órfão de um anã, essa metade que falta, e em Isaura, uma enjeitada por não ser virgem, ele busca ser completo. A partir desses encontros, navegamos sobre personagens excêntricos, complexos, solitários e terrivelmente humanos que habitam uma vila perdida algures próximo do literal.
Valter Hugo Mãe nos brinda em O Filho De Mil Homens com essa narrativa poética sobre a busca de uma família mesmo em lugares improváveis. Encontramos aqui personagens complexos, alguns cheio de preconceitos, mas também abarrotados de ternuras.
Confesso que sou muitas vezes cínica com a possibilidade de encontrar o melhor nas pessoas. Aqui VHM nos dá aquele tapa na cara com a beleza dessa história. Sem esquecer de apresentar as tristezas e os abandonos vividos pelos personagens. Cada um ganha uma solidão para chamar de sua, até que os encontros acontecem.
Além disso ler esse livro é encontrar nas linhas a sonoridade do português de Portugal e sentir dentro de mim saudades também de um modo de falar e contar histórias.
É sobretudo uma história sobre esperança e a alegria no encontro com aquilo de mais precioso que temos, o encontro com a beleza da humanidade. Não há cinismo que resista.
O Filho De Mil Homens de Valter Hugo Mãe. 2. ed. São Paulo: Biblioteca Azul, 2016. 224p.
QUAL OS SABORES DO LIVRO.
É um livro que vai apresentando a amargura desses personagens, mas adocicado por esses encontros iniciado por Crisóstomo, que só queria desvencilhar-se da solidão.
FRASES:
"Os seus olhos tinham um precipício".
"Quem não é ninguém não lhe falta nada".
"Comia a dor como uma coisa estrebuchando, viva, como um animal que era preciso desfazer para as profundezas do espírito. Um monstro que já não lhe escaparia".
"É isso o amor. Uma predisposição natural para se favorecer alguém"
"Quem não é tocado não se cobre nunca, anda como nu. De ossos à mostra".
"Todos nascemos filhos de mil pais e de mais de mil mães, e a solidão é sobretudo a incapacidade de ver qualquer pessoa como nos pertencendo, para que nos pertença de verdade e se gere um cuidado mútuo".
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