"No mundo das portas abertas não havia espaço para o rebolado nem para o choro, só para os machões".

Em Mau Hábito acompanhamos a história de uma menina que cresce num bairro operário de Madrid nos anos 80 e 90. É uma história de formação crescer num corpo no qual não se identifica e a difícil missão de autoaceitação, misturada com referências pop, literárias e sobre o mundo travesti.

Contudo, é muito mais que isso, em uma linguagem crua e poética, essa menina que não tem nome faz reflexões humanas, sociais e de gêneros, desnudando o que é ser uma pessoa trans num mundo cheio de preconceito no qual você se esconde num armário, para existir, mas essa existência não é nada mais que dor. 

Dividido em capítulos com um tema, em cada um ela vai contando sobre sua vizinhança, pessoas amigas e amadas que vai encontrando no caminho, experiências felizes, mas sobretudo amargas e sobretudo sobre esse armário em que ela se coloca por medo (quem não teria) de ser quem se é. 

Alana S. Portero, é muito boa escritora. Consegue nos colocar dentro dos sentimentos dessa personagem e perambular por suas emoções, sobretudo de melancolia com pequenos espaços de alegrias em encontros com personagens inesquecíveis. É sobretudo um livro sobre uma trajetória de autoaceitação, na coragem de existir e lutar para que possamos ser quem somos.

"Assim como correr, caminhar era uma maneira de sentir que não estava em meio a um mundo que girava ao meu redor com tal fúria que não me deixava me mover, que a vida não era um redemoinho impossível de atravessar. Caminhar era deslocar-me, fazer algo, opor resistência a uma moleza que me devorava viva".

"A masculinidade era uma força de chantagem que alcançava o mundo todo".

"A merda do trabalho nos tirou tempo e oportunidade de nos educarmos juntos, e tínhamos apenas um amor em estado bruto, algo poderoso demais que não sabíamos dosar".

 

Mau Hábito da Alana S. Portero, 1ª edição da editora Amarcord, tradução Be Rgb, lançada pela Tag Livros, 2024.


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