"Há mergulhos que são para sempre"
Perto de completar 40 anos, uma mulher começa a questionar se quer viver a maternidade, enquanto trabalha na sua criação artística, uma história que está escrevendo. Numa narrativa fragmentada por blocos, deparamos com a vida dessa mulher, seus pensamentos e suas criações. Esse é o mote principal de A Mulher De Dois Esqueletos, de Júlia Dantas.
Júlia sabe construir um livro de linguagem bem ritmada, frenética até. Começando com um conto cheio de humor e desgraça ao mesmo tempo, que nos embaralha (principalmente se a gente estava esperando a história principal), nos confronta com o fantasma de viver no período da pandemia. Passado o susto ou as gargalhadas estridentes pela história insana dessa brasileira presa de algum local na América Latina, entramos na história "real".
A estrutura do livro, parece uma seleção de contos que vão mais ou menos se conectando. Porém, o que estamos acompanhando são os dilemas da personagem. Então nesses fragmentos entre os pensamentos dessa escritora e suas vivências (e a gente sempre fica em dúvida qual é qual), ela vai elaborando essas questões dentro dela, mas não esquecendo de suas criações dentro das histórias.
Mais que uma história, A Mulher De Dois Esqueletos, é uma caminhada pelos labirintos femininos da escolha entre criações: a criação de arte ou a criação de um ser. Qualquer uma delas, atrapalhará a outra, porque tanto ser escritora como ser mãe, são atividades que requer tempo, que implicará no abandono da outra. Principalmente é sobre escolhas impossíveis de serem aceitas integralmente se a maternidade é uma dúvida. Ser ou não mãe, se você já tem a escolha feita, o mundo é muito mais fácil, o problema é quando não temos certeza.
É no fundo um livro sobre escolhas da maturidade e como crescer implica também em deixar de ter algumas experiências na nossa vida.
A Mulher De Dois Esqueletos, de Julia Dantas. Porto Alegre: Dublinense, 2024. 160p.
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