"No fundo, estamos presos à incapacidade de ser outra coisa diferente do que somos"

Em Tudo É Rio, acompanhamos as história da prostituta Lucy, uma mulher que tem no poder da sedução, a sua força, e do casal de apaixonados Dalva e Venâncio que após um ato impensável tem seu destino transfigurado pela tristeza e a dor. O destino desses três vão se cruzar e seremos conduzidos ao destino desse rio chamado vida.

Nesse momento do tempo, 2024, o livro da Carla Madeira já ganhou um hype enorme. Ele virou queridinho de muita gente e já entrou em diversas listas de melhores livros da literatura contemporânea brasileira. Acredito que grandes expectativas, geram normalmente grandes frustrações. Também nesse período pré-leitura, já tinha ouvido do final ser bem divisivo. Conto isso porque certamente isso também impacta na nossa experiência de leitura e com ela, na nota que estou dando ao livro. 

Posto isso, acho que a linguagem que a Carla escreve o livro é tanto crua e áspera, quanto é poética. Acho extremamente difícil juntar essas características num texto, e acho que a autora faz isso de maneira muito boa. Tão boa, que a gente esquece dos problemas da história.

Lucy e Venâncio são personagens razoavelmente desenvolvidos que têm suas vozes no texto, mesmo sendo narrado em terceira pessoa, lemos muito dos seus desejos, receios e medos. Lucy começa grande, mas termina pequena porque sucumbe ao poder de querer tudo pra ela, principalmente quem não a quer. Acho que é o único arco que tem um desenvolvimento satisfatório. Abriria então espaço para o desenvolvimento de Dalva, essa pessoa que sofre calada e vinga de uma maneira bem esquisita. Não somos os humanos bem esquisitos? Fico pensando se seria isso que a autora queria, que a Dalva terminasse em grande. Não posso inferir porque não escutamos sua voz na história. Talvez porque as mulheres como Dalva, submissas, não têm suas vozes ouvidas na vida ou porque a autora nos quer chocar com um plot twist? O problema é que acho que foi pela segunda alternativa. 

Outra história mal desenvolvida é a suposta redenção de Venâncio para o ato hediondo que ele fez. Ninguém sabe, além de Dalva, e tudo acontece dentro dele mesmo porque ele teve um pai do jeito que ele tinha. Por isso o final parece chocante, não houve preparo na história. Portanto, o problema não é ela o ter perdoado, é o modo a narrativa é construída e termina. Parece uma história da Disney, onde a princesa venceu o mal após uma pequena vingança para o herói se redimir e depois o milagre aconteceu, Deus voltou e tudo ficou bem. Há algo de muito esquisito nessa história. 

Será que a autora queria chocar os leitores a conseguir amar uma história de amor apesar de todos os seus problemas por causa da linguagem cheia de romance? Torcer pelo casal apesar de um ato imperdoável e fazer a gente ter ódio disso ou, pior, nem reparar nisso tão entretidos estamos em desejar que eles sejam felizes para sempre? Se foi isso, realmente está de parabéns, mas para mim terminei a leitura com um tanto de raiva. E quanto mais pensei na história, mais ela foi se apequenando dentro de mim.

Comecei apreciando, terminei não gostando, e com o tempo e os dias fui odiando, um pouquinho a cada dia. Com cabeça desanuviada, deixei o ódio ir embora, pensei com calma. Lembrei de Aurora, que personagem gostosa, algumas reflexões sobre Deus e sua humanidade bem interessantes e se terminei não amando, pelo menos vi algumas qualidades. Certamente é um livro que não te deixa indiferente e merece ser lido. Só espero que no final você perceba que essa história não é nada feliz e a odeie também, apesar de bem escrita.

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