É viver que nos machuca
Em O Mapa de Sal & Estrelas, escrito por Zeyn Joukhadar, acompanhamos duas histórias, a primeira de Nur que após ter sua casa bombardeada na Síria tem que abandonar seu país com sua família, a segunda, quase um milênio no passado, de Rawiya, aprendiz de cartografia que abandona sua casa ao desconhecido para aprender o que ela deseja. Traçando a mesma rota, as jornadas de amadurecimentos se intercalam na narrativa e nos apresentam como somos carregados das nossas geografias passadas e presentes.
O livro tem como sua maior qualidade - e defeito para alguns - sua narrativa descritiva. Joukhadar, consegue compor reflexões fascinantes sobre o interior da Nur, descrições detalhadas enriquecidas pela habilidade da sinestesia dela em nos apresentar lugares, coisas e pessoas com cores e sons que não me lembro de ter lido anteriormente, e um poder de contar duas histórias e intercalá-las tocando nos mesmos espaços exteriores e interiores. Contudo, entendo que por isso mesmo algumas pessoas acharam a leitura cansativa. Ela demora a andar, é daquelas que temos que ir aos poucos, apreciando linha por linha. Vencendo espaços.
"A luz se desloca, atingindo a anchusa da lata. A cor de caramelo residual do refrigerante se infiltrou em suas pétalas, tornado-a um roxo doentio, muito embora a gente sempre diga que é azul. Ninguém notou. Parece que as pessoas perdem mais que jamais conseguirão reaver - uma casa de três quartos, trinta centímetros de cabelo, toda uma cor. Mas ninguém nunca diz. É mais fácil viver com a perda se você não a nomeia? Ou isso é algo que se faz por misericórdia aos outros?"
A personagem principal, Nur, é muito bem construída. Em sua trajetória, vemos a criança se transformando pela dor, perda e acontecimentos ao redor. Ela cria várias conexões envolventes com as pessoas ao redor, seu Baba, Abu Said, suas irmãs. Certamente enriquecendo o a experiência de leitura. A outra história mais fantástica, criada a partir de mitos passados, vai dando respiro aos momentos aflitivos e reais vividos na história principal, lembrando um pouco as narrativas das Mil e Um Noites. Não achei que a intercalação confunde as histórias, elas servem de contraponto nas reflexões propostas: cultura, geografia, herança de um povo,
"Algumas pessoas levam tempo para descobrir quem são. Sentem-se pressionadas por todas essas coisinhas que o mundo dizem serem importantes. É como ser sopradas de uma lado pra o outro no vento".
Adorei muito as reflexões sobre geografia e sobre nós e nossa história. Amei alguns personagens e sua paixões tão bem construídas que encontramos na jornada, como Abu Said, Zahra, Yusuf e tanto não nomeados que são encontrados nessa jornada, a enriquecendo. Uma das minhas ressalvas ao livro é algumas ações da narrativa,
principalmente referente a mãe de Nur. Pelas características
apresentadas na história sobre a personagem acho que algumas decisões
dela bastante erráticas, propositalmente decididas para dar maior
desespero na trajetória da Nur que não precisava. É um pequeno peso que
compromete um pouco a narrativa, mas não o bastante para não valer a
pena de ler.
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