As crianças não têm coerência, essa é uma doença que contraímos ao crescer
Em Línguas, Domenico Startone nos apresenta a história de um menino fantasioso que sonha em ser poeta e tem uma paixão por uma menina que mora no prédio em frente. Entre duelos de amor com seu amigo Lello, sua relação com sua avó que tem um papel fundamental na sua vida e quem nutre uma adoração extrema por ele, e sua relação com a língua napolitana e o preconceito linguístico, acompanhamos essa jornada escrita por esse menino agora idoso.
Ler esse livro foi uma experiência fantástica, ele tem uma linguagem fluída, bem humorada que somente um pessoa relembrando suas experiências de infância e fazendo uma releitura dela, sob uma nova ótica, poderia contar. E apesar desse bom humor, a história também é bastante reflexiva. Esse homem vai relembrar esse amor platônico de infância com a milanesa, enlaçando nessa história as diversas perspectivas e memórias presentes e passadas que são construídas por diferentes pessoas, no caso, as percepções dele e de seu amigo, e sobre a nossa vida mortal - vivida - e imortal - imaginada por aqueles que ficam.
Vamos acompanhar esse menino com certa devoção pela morte e uma grande capacidade inventiva para criar histórias e sua relação com a avó, que não era muito valorizada por ele na infância e refletimos sobre essas relações que não demos valor no passado, mas que ganham relevância quando pensamos em nossa trajetória (quem vai ficando mais velho, vai se conectar com essa experiência). E por fim, refletimos sobre a nossa relação com a língua, aquela que falamos e a língua oficial que aprendemos e é considerada como padrão e como essas características acabam nos construindo e nossas relações com as pessoas e com os lugares que habitamos.
É um livro sobre amadurecimento e como perdemos e ganhamos com a nossa trajetória, sobre nostalgia, sobre aceitação da nossa mediocridade. O livro é pequeno de páginas, mas ele embarca tanto nessas poucas páginas que você saí dele, ainda mais se você está nessa vibe passado reflexiva, com tanto sentimentos e razões para pensar que já está na minha lista de segundas leituras. Certamente já anotei o nome de Startone na minha lista de autores para ler outro livro, foi minha primeira experiência lendo algo dele. Obrigada Tag!
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