"A memória é uma paisagem contemplada de um comboio em movimento"

Em O Vendedor de Passados, escrito por José Eduardo Agualusa acompanhamos Félix Ventura, um albino que mora em Luanda, Angola e vive de traçar árvores genealógicas criando passados para seus clientes. Acompanhamos esse personagem, pela narração de seu amigo, uma osga. Um dia Félix recebe a visita de um estrangeiro procurando uma identidade angolana enquanto tenta uma amizade com a bela Ângela Lúcia, uma fotógrafa.

Eu o li após ler Oração para Desaparecer, da Socorro Accioli, e apesar de a história não ser contada pela perspectiva do Ventura, o narrador escolhido por Agualusa traz uma perspectiva mais de fora, o objetivo é analisar o contexto da sociedade angolana nesse período pós-guerra. Então quem gostou do personagem no enredo da Accioli, não vai ver aqui mais sobre o indivíduo. A perspectiva de Agualusa com o personagem tinha outro objetivo. Posto essas diferenças, o personagem não deixa de ser cativante e queremos saber mais sobre esse albino escritor de passados.

 Tem livros que você lê e a cada memória dele após a leitura, vai o engrandecendo, conforme o revemos nas nossas memórias fica aquilo que de melhor há. O Vendedor de Passados é um deles. O livro vai fazendo várias reflexões sobre verdade, mentira, memórias, passado e a nossa construção de nós mesmos e de um país, no caso Angola, além de fazer uma reflexão sobre a sociedade angolana e sua história. Tudo isso sem ser chato, ao contrário, o livro é cheio de momentos engraçados, sem deixar de ser profundo e ter seus momentos dolorosos. É mais ou menos como rir da nossa desgraça.Tudo isso numa história curtinha, de leitura bem fluída e pela perspectiva de uma osga que já foi um humano e tem sonhos bem humanos. Eu só queria que durasse mais, essa história.

 "A verdade é uma superstição. (...)Acho que aquilo que faço é uma forma avançada de literatura. Também crio enredos, invento personagens, mas em vez de os deixar presos dentro de um livro dou-lhes vida, atiro-os para a realidade" (p61)

"Só somos felizes, verdadeiramente felizes, quando é para sempre, mas só as crianças habitam esse tempo no qual todas as coisas duram para sempre". (p75)

"A memória é uma paisagem contemplada de um comboio em movimento (...) São coisas que ocorrem diante de nossos olhos, sabemos que são reais, mas estão longe, e o comboio avança tão veloz, que não temos a certeza de quem realmente aconteceram" (p114)

"O homem é completamente doido. Cacimbou. Você esteve muito tempo fora, a viajar, não faz ideia daquilo por que passamos nesses maldito país. Luanda está cheia de pessoas que parecem muito lúcidas e de repente desatam a falar línguas impossíveis, ou a chorar sem motivo aparente, ou a rir, ou a praguejar. Algumas fazem tudo isso ao mesmo tempo. Umas julgam que estão mortas. Outras estão mesmo mortas e ainda ninguém teve coragem e as informar. Umas acreditam que podem voar. Outras acreditam tanto nisso que realmente voam. É uma feira de loucos esta cidade, há por aí, por essas ruas em escombros, por esses musseques em volta, patologias ainda nem sequer catalogadas. Não leve a ´serio tudo que lhe dizem, Aliás, aceita um conselho?, não leve ninguém a sério". (p121)

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