"toda a solução dos homens e de outros mamíferos residem na maciez"
Em A Árvore Mais Sozinha do Mundo, acompanhamos uma família que vive no Sul do Brasil e tem como modo de subsistência a lavoura do tabaco. Vamos acompanhando por múltiplas vozes inanimadas as oscilações do dia a dia dessa família, a angústia da espera de uma nova chance de resolver a vida e os problemas da terra e do cultivo.
Pela mão de Mariana Salomão Carrara, somos apresentados a essa família e um modo de vida e subsistência que eu não conhecia. Através da narração de uma árvore, um espelho, uma roupa de proteção e uma rural, temos além dos glipses de sonhos atuais e histórias passadas, somos conduzidos por diversos pensamentos desses objetos. Diante de uma família cheia de silêncios e que parece morta, são os objetos (e os animais) aqueles que clamam pela vida, e cada um desses narradores tem suas "próprias vozes".
O romance é dividido em duas partes, a primeira com trechos mais longos de narração - sendo cada um desses trechos narrado por um dos objetos. Já a segunda, com a chegada da avó, são trechos mais curtos e rápidos. Acho que um escritor que tenha uma ideia dessas, nunca deixaria de tentar escrever essas múltiplas linguagens. É uma experimentação de linguagem para apaixonados pela escrita que sempre vale a pena tentar fazer e Carrara faz muito bem. Durante a leitura, apesar de divertido descobrir essas diferenças, também acredito que torna essa primeira metade muito mais arrastada e senti dificuldade de me conectar com a família, sendo mais fácil sentir empatia por esses objetos.
Contudo, pela segunda metade, entra em cena a mãe de Guerlinda, a matriarca dessa família, composta pela adolescente Alice, a pré-adolescente Maria e o menino Pedro e o atualmente taciturno Carlos, o pai dessa família. Apresentada a família na primeira parte, seus dilemas e modo de vida, a avó Elvira é a única ali que parece ter ainda um espírito e alguma felicidade na vida, mas será que ela conseguirá emendar essa família? Vamos aguardando em ritmo maior o desfecho dessa história.
Minha dica, não ficar apegado a detectar os narradores se estiver cansado da história, a família pode parecer distante nesses momentos, mas aqueles personagens vão nos levar a momentos emocionantes de família. A escritora tem uma linguagem muito humana e sensível, com várias pérolas de pensamentos durante o livro. O final deixa-nos reflexivos e eleva muito a experiência. E o livro ainda faz uma denúncia sobre um mundo que eu não conhecia.
No final, o que fica na memória são os personagens bem construídos que vão dando contexto, cheio de silêncios que engrandece o arco dessa família e nos deixa em suspenso. Apesar de longe da minha realidade, somos confrontado com a experiência humana em família, e isso nos une a essa história e esses personagens. Foi minha primeira experiência com uma história da Carrara (obrigada Tag), mas certamente não será a última.
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