"Morreu com todos, porque lhe faltava a palavra"

Em O Som do Rugido da Onça, acompanhamos a história dos indígenas Iñe-e e Juri, raptados de suas aldeias e levados pela Europa pelos naturalistas Spix e Martius no século XIX. Misturando ficção com fatos reais, Micheliny Verunschk apresenta o relato dessa viagem pela perspectiva de Iñe-e. Essa história é extremamente tocante, misturando dentro de nós, raiva, tristeza, desgosto e coragem de acompanhá-la. Com grande lirismo, Verunschk faz nos acompanhar esse relato de uma criança indígena que é sequestrada de sua tribo, do seu modo de vida e da sua própria identidade, para sozinha e em silêncio, dar voz as onças, rios e encantados que a rodeiam e a sua cultura. O livro é construído, segundo a própria autora, sobre duas perspectivas: a linguagem e o tempo. A linguagem como essa construção que nos define, mas ali abandonada sem ninguém a quem partilhar, é imposto o silêncio a Iñe-e superada pelo resgate a sua história e de quem ela é. A história mistura muito bem lirismo, palavras e o modo de vida indígena - pelo menos de Iñe-e - para nos fazer conhecer uma história nossa que foi tirada de nós. É triste e belo ao mesmo tempo. Sobre o tempo, o livro é construído em fragmentos onde passado, presente e futuro se misturam e se interpõe. Para isso, a autora coloca uma personagem Josefa, talvez um alter ego dela mesmo, que vai resgatar a história dessas crianças e principalmente de Iñe-e. A ideia é boa, mas acho que foi a parte menor conseguida. Chega no terceiro tempo que a personagem é abandonada completamente e eu até queria saber mais sobre ela. Apesar disso, gostei muito da experiência de leitura, principalmente do modo como a autora compõe a narrativa, dando vozes a rios, e entidades, principalmente como ela compõe a trajetória final de Iñe-e, nos mostrando um modo completamente diferente de ver o mundo e sua criação e ligando aquela história no século XIX com a nossa trajetória atual como país e a condição indígena atual. Se você conhece um pouco da história brasileira, mesmo que não conheça a história real em que o livro se debruça, você o lerá em suspenso. A gente sabe que nada de bom vai acontecer, quando sabemos como é o destino dos indígenas que cruzaram com um branco ao longo da história brasileira. Então você o lerá com um misto de angústia, tristeza e encantamento. Por que damos tão pouco valor a cultura indígena na formação do nosso país? A gente saí do livro querendo saber mais dessa herança tão nossa e abandonar essa linguagem dada porque não carecemos mais dela, queremos ser e falar com a linguagem de onça. Livro lindo é triste demais!

Comentários