"Nunca lhe tirariam a ventura de viver como sempre quisera viver..."
Em Viva o Povo Brasileiro!, João Ubaldo Ribeiro narra história do Brasil durante quatro séculos, apesar da narrativa se concentrar principalmente no século XIX, e a formação do povo brasileiro a partir da Bahia, principalmente pela ilha de Itaparica e o Recôncavo Baiano. É partir daí que somos apresentados a diversos personagens, compondo um grande épico da formação do povo e da elite desse país.
Acredito que o resumo acima apesar de contar sobre o que é a história, não dá dimensão do que é o livro e essa saga épica. Primeiro, que o Ubaldo tem esse modo galhofeiro e sarcástico de escrita, que torna a história, que talvez seria pomposa pelas mãos de outro escritor, uma história muito brasileira e deliciosa de ler. O personagens são muito bem construídos e muitos deles odiamos, passamos raiva, mas não deixamos de rir. Ubaldo não poupa, do herói da independência que não lutou coisa alguma e que declara brasileiro para ficar com a terra do pai português, até o fidalgo mulato que se embraquece, esconde a mãe negra, e arranja para si uma origem inglesa, está tudo lá, mostrando bem a origem das nossas elites.
Contudo, é na gente do povo que está os melhores personagens, do caboco Capiroba que come gente e tem uma predileção pela carne holandesa, nego leléu que aprende como sobreviver nesse mundo de escravos, a nega Daê que se torna mestre de um barco, a Maria da Fé a encantadora da revolução, Patrício Macário, o militar que se encanta pelo povo, o sábio Zé Popó, Filomeno Cabrito e a mula Periquita, todos eles são deliciosos e vem e vai nessa narrativa que vai a vários lugares e pula em diversos tempos.
Temos vislumbres da independência, da Guerra do Paraguai, do nascimento da República e da Guerra de Canudos, tudo isso acompanhando o enlace de várias gerações de alminhas que entram e saem dos corpos brasileiros, numa mistura do sincretismo religioso nesse caldeirão que é a cultura brasileira. Fabuloso é o trecho onde as divindades da mitologia iorubá entram em cena para ajudar seus filhos na guerra do Paraguai.
Não tenho palavras para descrever esse livro. É daqueles calhamaços para ler com calma. Principalmente, no início, pode gerar uma certa confusão porque a narrativa não é linear. Vamos sendo apresentados a personagens e muitos deles tem apenas uma participação no início da trama, pelo menos nas primeiras 50 a 60 páginas. Depois dela,apesar da narrativa continuar pulando, os personagens vão ganhando um maior tempo de desenvolvimento e vamos descobrindo as ligações entre aquelas histórias. É daqueles livros que todo mundo deveria ler!
Comentários
Enviar um comentário