"Deixe os vulcões em paz. É tarde para os vulcões."



Em Por Quem os Sinos Dobram, de Ernest Hemingway, acompanhamos a jornada de Robert Jordan, um americano, integrante das Brigadas Internacionais que luta na Guerra Civil Espanhola, ao lado do governo democrático e republicano, e recebe a missão de detonar uma ponte. Para isso, ele terá a ajuda de um bando de guerrilheiros. No planejamento de três dias, ele conhecerá personagens perigosos e fascinantes que vão ajudar (ou atrapalhar) a sua missão.

Essa foi minha primeira experiência com Hewingway e posso dizer que saí impressionada com o a escrita pragmática e simples, mas cheia de reflexões. Aqui temos uma missão na guerra, mas quem pensa que vai encontrar grandes emoções da guerra, está enganado. É na preparação do ato (que acontece lá nas últimas 100 páginas do livro que tem quase 700) que acontece a história. Aqui, o mais importante não é a explosão da ponte, mas os questionamentos sobre o indivíduo, moralidade, solidariedade, amor, amizade, ideias, aqueles que lutam sobre esses ideias e, sobretudo, sobre a guerra e sua desumanização.

Para isso, Hemingway nos brinda com diversos personagens fascinantes e carismáticos: Anselmo, esse velho caçador, meio pai, o único em que Jordan confia, que não gosta de matar homens; Pablo, chefe do bando de ex-combatente feroz e impiedoso a covarde, dissimulado e individualista no presente; contrastando com sua esposa Pilar, a fodona, meio cigana, meio mãe, corajosa, emotiva que acaba sendo suporte do grupo, a personagem mais interessante dessa história.

Enquanto Jordan, está planejando o ataque com ajuda desse grupo e de outro próximo de El Sordo (outro personagem fantástico), acompanhamos suas conversas regadas a muito vinho e comida. Uma das partes mais interessantes da história é esse mergulho na cultura espanhola, inclusive no culto das touradas (que particularmente não gosto nada), que traz camadas a todo um povo e acrescenta muito a história.

Nesses momentos, uma das conversas mais agonizantes, contada por Pilar, é o massacre dos supostos nazistas pelo grupo de Pablo feito numa cidadezinha e todo o efeito manada que advém desse ato, onde pessoas que até então conviviam juntas (lembramos estamos numa cidade pequena nos anos 30) acabam massacrando pessoas apenas por. Hemingway não poupa nenhum lado mesmo, mostrando o modo pomposo que figuras militares de lideranças vivem e agem.

Entretanto é na trajetória de Robert, el inglés, que o livro se concentra. De homem completamente focado na sua missão a mudando seu foco de interesses. É nesses três dias que vemos esse jovem professor universitário  de espanhol, o estrangeiro, se indagando sobre si, seus ideias, sobre a guerra, e inclusive, se apaixonando pela jovem Maria, uma protegida de Pilar, que foi capturada pelos nazistas, estuprada e foi encontrada terrivelmente maltratada. Então, alguém tão concentrado no seu ideal, de repente, encontra o amor. Muitos apontam esse com um dos pontos fracos do livro, esse amor, "do nada", em tão pouco tempo. Mas não é em tempos de guerras que nosso amanhã está sempre em ameaça? Não vejo como ponto fraco, acho boa a trajetória, apesar de achar Maria uma representação feminina menor em comparação a força magnífica e perfeita de Pilar.

É um livro que recomendo para quem gosta de leituras reflexivas. Quem está procurando um licro de ação de guerra, fuja dele, porque vai achá-lo enfadonho. Contudo, se quiser reflexões certeiras em linguagem simples, pensamentos de personagens e sobretudo um mergulho na cabeça de diversos personagens interessantes, no meio da guerra: esse livro é pra você. A partir dele, ficou meu desejo de  ler outros livros do autor.


"Antes, tínhamos a religião e outras coisas sem sentido. Agora, cada um precisa ter com quem falar abertamente. Pois quanto mais bravura alguém tiver, mais solitário vai ficando".

"Até agora, girou duas vezes. É uma roda enorme, oblíqua, e cada vez que completa um giro volta ao mesmo ponto de partida. Um lado é mais alto do que o outro, e a cada volta arremessa a gente pra cima e traz de volta para baixo, ao começo. Não há prêmios e ninguém embarca nessa roda por vontade própria. Você faz uma volta, outra, e retorna se, jamais ter tido a intenção de embarcar nesse carrossel".

"Este morro se parece com uma úlcera. Deixe os vulcões em paz. É tarde para os vulcões."

" (...) olhou para o céu e para a região montanhosa, engoliu o vinho, e simplesmente não sentiu vontade de morrer. 'Se a morte é inevitável, e todos morrerão um dai, então eu posso morrer, mas odeio isso'. Morrer era nada, e ele não tinha uma imagem da morte, nem medo dela na mente, Mas viver era um campo de trigo ondulado ao vento numa encosta. Viver era uma gavião no céu."

"Acho que nascemos num tempo de muita dificuldade. Acho que em qualquer outro tempo seria mais fácil. Hoje em dia se sofre pouco porque todos nós aprendemos a resistir ao sofrimento. Quem sofre muito não é talhado para viver nesses tempos. Mas é uma época de decisões difíceis. Os fascistas atacam e tomam as decisões por nós. Nós lutamos para sobreviver. E eu gostaria de estar vivo para poder amarrar um lenço naquele arbusto lá atrás, voltar à luz do dia, pegar os ovinhos e colocá-los sob as galinhas, e ver os filhotes de perdizes no meu quintal. Gostaria dessas coisas pequenas e simples".


Por Quem os Sinos Dobram de Ernest Hemingway; tradução de Luiz Peazê. - 24ª edição - Rio de Janeiro: Bertrand do Brasil, 2023, 672p.

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