"É mais fácil contornar uma pedra que quebrá-la"

Em Tudo Bom Vai Acontecer, acompanhamos a história de Eritan que nasce nos anos 60 na Nigéria, enquanto cresce numa cultura que ainda insiste na submissão feminina. Enquanto ela faz amizade com uma vizinha diferente e provocadora, Sheri Bakare, Eritan tem que lidar com os pais que estão sempre em briga desde a morte do irmão mais novo dela, mas principalmente com sua mãe, uma mulher muito religiosa que não quer essa amizade entre elas. A narrativa escrita por Sefi Aita vai acompanhar a vida da personagem ligando-a com a própria história da Nigéria. Privilegiada, a personagem ao longo de três décadas, mas tem que lidar com a sua família, a questão feminina, as tradições de seu país e o desejo de mudança em um lugar em que é muito difícil ter uma vida normal. O que mais me interessou nesse livro foi como Sefi Aita constrói muito bem essa personagem, seus dilemas, sem maniqueísmos e ainda apresenta um panorama da Nigéria e de sua história recente que faz os leitores mergulharem e saber mais sobre tantas questões culturais que são contadas no livro e que de algum modo reverbera na cultura brasileira. A personagem de etnia iorubá, nos provoca a querer saber mais sobre a sua língua e cultura, inclusive culinária (quanta comida é descrita no livro, que são momentos de união de pessoas e de dar água na boca). A descrição de um bairro brasileiro onde escravos libertos foram se refugiar assim que aconteceu a libertação da escravidão no Brasil (e a gente pouco sabe disso), as relações femininas e familiares no livro. Com uma linguagem simples e uma narrativa que vai acompanhamos três momentos em três décadas, é uma história principalmente sobre a construção da nossa persona como indivíduos, sobre nossas amizades e tragédias diárias, sobre o encontro com os nossos pais quando adultos - de reconstrução ou afastamento. Sobretudo é um livro sobre questionamentos sobre a situação das coisas em nosso país e sobre nosso desejo de mudá-lo, mas esbarrando nas dificuldades diárias que esse enfrentamento individual proporciona e que no fundo não traz a mudança que queremos.

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